sábado, 28 de dezembro de 2019

CONHECENDO PESSOAS E FAZENDO AMIZADES

PROJETO CONHECER A AMAZÔNIA I

Texto 3


Passada a novidade, a viagem segue uma rotina, às vezes somos tomados pela ansiedade, mas pensamos que ainda faltam muitos dias e que o melhor é acalmar o coração. Ainda assim, há passageiros que três dias antes da chegada não param de falar da hora exata em que vão concluir a viagem. Por vezes, pode ser um pouco massante, mas é extremamente agradável pensar que por um curto período estamos no meio do nada, cercados por águas, peixes, botos que nos rodeiam, sem que consigamos fotografá-los, umas casinhas aqui outras acolá. Às vezes uma pequena vila de pescadores. Enfim, vamos nos apropriando da paisagem e mesmo de longe percebemos a beleza da beira rio. Por vezes até imaginamos se seria possível morar assim, em um lugar tão distante, sem transporte e muitas vezes sem energia elétrica. 
E envolvida em tantos pensamentos uma noite mais chegou, desta vez empurrada por um forte vento. Toalhas, lençois e papeis voavam pelo redário.  Vazias as redes subiam e desciam num louco e colorido balé. Se a noite anterior estava escura, esta está muito mais. E um pensamento me sobressalta: talvez seja uma noite trabalhosa para a tripulação e perigosa para nós. Mas enfim, é Deus no comando e vamos confiar. 
Conheci no barco uma passageira de 14 anos com um bebê de oito meses nos braços.  A adolescente viajava sem a supervisão de um adulto. Na verdade, ela estava indo encontrar-se com a mãe em Novo Aripuanã, pois o bebê que estava acostumado com o convívio com a avó, desde que esta viajara há duas ou três semanas, ficara doente. 
A menina tem uma história de vida bem intensa. Aos dez anos chegou em Porto Velho e foi morar em uma casa com dois irmãos menores, arrumou um namorado um pouco  mais velho que passou a morar junto, na mesma casa, assumindo a responsabilidade do sustento da família. Mas ela diz que não estava dando mais certo e não gostava mais dele o suficiente para ficar junto e  antes que o bebê nascesse eles  se separaram,  mas  ela já tem outro companheiro. Ufa, haja fôlego para aguentar a disposição dessa garota.
Conheci um outro casal também interessante, passageiros da cabine especial, moradores de Manaus. Estão casados há pouco mais de um ano, mas confesso que não gostei da forma como ele trata a esposa, sempre enfatizando que se casou com uma moça velha, como se tivesse feito um favor para ela. Nas conversas o primeiro a falar tinha que ser ele e quando a esposa falava algo, ele faltava chamá-la de burra, tapada. Um grosso mesmo. Mas reconhece que sua vida melhorou muito desde o casamento com a manauara. Os dois têm pouco mais de 50 anos. 

No segundo dia de viagem o dia amanheceu esplendido, mesmo com a chuva que insistiu em cair na madrugada. Passamos por um forte vento, que nos obrigou a descer os toldos da embarcação, mas felizmente foi de curta duração e o dia foi de uma marola gostosa, com uma brisa suave durante todo o dia, permitindo um clima bem  agradável. 
Ao meio-dia chegamos a Manicoré. O barco nem ancorou. A cidade estava em festa e por isso o porto estava tomado de embarações e para chegar ao local de desembarque os passageiros foram levados de voadeira. A princípio, nossa chegada em Manaus estava prevista para sábado, uma vez que a embarcação deixou Porto Velho na quarta-feira a tarde, mas desembarque sábado na capital amazonense já estava descartado pela maioria
A refeição é sempre motivo de interação

Quando bate aquele desânimo o melhor lugar é a rede

Novos amigos

Desembarque de voaeira na noite escura

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

A CHEGADA EM HUMAITÁ

Projeto Conhecer a Amazônia I

Texto 2

A escuridão da primeira noite de viagem de Porto Velho a Manaus confirmava a mudança de tempo. Ao longo do rio só se via o faixo de luz riscado pelo holofote do Vieira V, cujos operadores se revezavam frequentemente. A noite foi tomada por uma forte chuva  com vento e frio. Não teve quem não buscasse uma roupa  mais adequada à temperatura. 
Lá pelas tantas, um susto. O barco parou seus motores. Para aliviar a tensão    pensei que poderia ser por conta dos bancos de areia bem como a necessidade de manobras mais elaboradas. Mas no dia seguinte, soube-se por alto, que sempre que há uma tempestade um barco do porte do Vieira V precisa parar por medida de segurança, mas esta não foi a única explicação que ouvi, a outra versão é que devido a pouca profundidade do rio, um marinheiro vai a frente em um barco tipo voadeira palmilhando o rio, procurando águas mais profundas para não encalhar em bancos de areia. Explicação plausível e isso aconteceu em Calama, bem perto do início da nossa viagem. Todavia, menos mal. O pior já tinha passado, pelo menos até então. 


Balsa encalhada
O dia amanheceu preguiçoso, bom mesmo pra ficar na rede. Pouco depois das 6 horas um silvo que mais animava que incomodava anunciava o café da manhã. Tudo simples: café com leite e pão com margarina. O problema era o leite frio. O pior estava por vir, o balanço do barco nas águas barrentas do Madeira me presenteou com uma tontura daquelas, que só melhorou depois de uma medicação. 
Almoço servido às dez e meia, comidinha fresca e quentinha deixou todo mundo animado, tanto que por um bom tempo as redes foram deixadas de lado. 
Pouco antes de chegarmos a Humaitá, o primeiro porto, o comandante precisou dar uma desacelerada porque foi informado que uma   balsa estava sendo rebocada logo a frente, por ter encalhado na areia. Por falar em velocidade, fui informada que a velocidade média do barco no qual viajávamos oscila entre  14 e 22 km por hora, dependendo da situação do curso do rio. 
Até que paramos em Humaitá, um porto arrumadinho, com uma plataforma limpa e organizada. Chegar a primeira cidade também significa encontrar sinais de internet nestes percursos de rio. E ai é todo mundo no celular pra avisar em casa que está tudo bem. Pela BR-319, o trecho de Porto Velho a Humaitá é feito entre duas a três horas. O asfalto é conservado e rapidamente se chega à cidade. Vale salientar que de barco chegamos a Humaitá cerca de 20 horas depois de ter deixado a capital de Rondônia. Em torno de 17 ou 18 horas a mais de viagem. E por incrível que pareça teve passageiro para descer na cidade. 

Porto de Humaitá (AM)
Mas a parada é curta e de novo tudo volta a ser como antes, sem acesso a internet, sem redes sociais. A próxima parada será Manicoré, que dizem ser a terra dos bacurais. Será que são notívagos? 




sexta-feira, 4 de outubro de 2019

A PARTIDA DE PORTO VELHO

Projeto Conhecer a Amazônia I

Texto 1

Moradora de Porto Velho desde 1986, confesso que não conhecia muitas coisas da região, mas a aposentadoria me proporcionou realizar uma linda viagem por um pedacinho da Amazônia. Quero convidar você para percorrer comigo alguns lugares desta incrível região. 


Começamos nossa jornada no barranco do Rio Madeira, debaixo da ponte que atravessa o rio. Nem a palavra porto n
em cais designam o lugar improvisado para descarregamento e carregamento de cargas ou embarque ou desembarque de pessoas. Tábuas estreitas ligam a embarcação à terra e por elas atravessam homens fatigados e soados, levando sobre os ombros ou sobre a cabeça fardos e fardos de mercadorias. Eles não usam sequer um equipamento de proteção, nem ao menos uma cinta para proteger a coluna. Enquanto observo o  movimento fico imaginando as dores crônicas daqueles senhores, muitos ainda bem jovens. 
O dia do embarque foi assim: manhã e tarde de idas e vindas daqueles homens. Ora eram sacas de cebola, ora de fécula, ou caixas e mais caixas que não se podia identificar. No interior do ferrobolt já estavam alguns veículos, cujo destino era Manaus. Finalmente às 16 horas foi encerrado o carregamento, mas também pudera, não tinha lugar pra mais nada no barco e lá vamos nós. 





Se as cargas eram muitas, os passageiros, ao contrário eram poucos. Seres humanos com diferentes expectativas. Um bom exemplo? Um casal de missionários que estava em viagem para Óbidos, no Pará. A missão: cuidar de uma igreja com um pequeno rebanho. Nervosismo e ansiedade enchiam o coração do marido José e da esposa Juliana que estavam partindo para o primeiro trabalho de campo longe da família.
Vagner, um adolescente de 14 anos era outro passageiro. Nascido em Novo Aripuanã, no Amazonas, teve a primeira experiência em morar longe de casa, mas a aventura não completou um ano e teve que voltar. Em Porto Velho morou na zona sul onde morava com tios, estudava e trabalhava como aprendiz de pedreiro. Em casa, pensa em aperfeiçoar o ofício e se tornar um bom profissional. 
A noite chega para nós no meio do rio e com ela muitos pernilongos que invadem o barco, talvez chateados pela presença humana no lugar de repouso, Atenciosa, Juliana oferece repelente para uma passageira que se bate muito, incomodada pela presença dos monstrinhos. 
Um caldo de carne quentinho é servido a todos os passageiros e em seguida um cafezinho, também quente. De modo geral, a tripulação é muito atenciosa. 
Singrando as águas do Madeira prosseguimos caminho. Às19 horas já está muito escuro. Como há bastante lugar para prender as redes, alguns passageiros começam a mudar de lugar. Enquanto isso, lá fora, o farol começa a funcionar. A embarcação é um pouco rústica e o farol é manipulado por marinheiros, que se revezam na parte superior movimentando o farol para melhor direcionar o comandante do barco. Aqui ou acolá se avista alguma propriedade iluminada às margens do rio, mas na maior parte da noite só temos a lua e as estrelas, que também  saem de cena e deixa o negrume total da noite. No salão das redes algumas luzes já foram apagadas. Boa parte dos passageiros já se recolheram nas suas redes, outros conversam e algumas crianças brincam despreocupadas. 
No andar superior, onde funciona uma  lanchonete, a tevê transmite o noticiário para quem deseja manter-se atualizado. Mas são poucos os que se amontoam em frente à tevê. Depois vem a novela e ai o público aumenta. 
A noite trouxe consigo uma brisa, finalmente podemos esquecer a tarde calorenta, mas logo chega uma madrugada trazendo o frio. Hora de puxar uma cobertinha. 



E OS ESTIVADORES?
Voltando ao trabalho dos estivadores, são trabalhadores dignos de admiração. Eles parecem incansáveis, trabalham por uma diária minúscula. Suam de verdade, erguem  uma montanha de peso. Confesso que meus frágeis ombros já doiam só de vê-los em movimento. 
Quem se importa com eles? Homens que acomodam um enorme volume de peso sobre  cabeça, pescoço e coluna. Muitos atravessam o barranco até o barco com a cebeça completamente curvada, outros desaparecem entre as sacarias que os envolvem. Fico imaginando a situação deles ao final do dia. Será que sentem dor? E em alguns anos como será a saúde destes homens? Ai me vem a mente Brasília seus suntuosos gabinetes e outros escritórios Brasil afora onde são negociados milhares de reais em propinas e outros mimos. 







domingo, 3 de março de 2019

... DE TIRAR O FÔLEGO ...


Estes trabalhos são resultados da observação e sensibilidade da artista plástica Rita Queiroz


A dependência química que arrasta jovens e adolescentes para o fundo do poço

Sou daquelas que ama artes plásticas, mas que não define nenhuma classificação ou escola artística. Se a obra é surreal ou contemporânea, expressionista ou impressionista não me pergunte. Mas aprecio uma tela na qual o artista deixa transcendente a sua própria existência para penetrar numa esfera diferente ou não, quando retrata com sinceridade uma cena real e comum, como um soldado no meio de uma batalha, ou uma cena imaginária que nos leve  a reflexão.


Acredito que pra tudo há um momento específico (certo), especialmente quando se trata de descrever um sentimento, um sentido ou qualquer outra coisa que perturbe o seu interior. Por isso entendo que não dá para compor duas telas com a mesma ideia em tempos diferentes, e essa incapacidade de reprodução assegura o valor de um trabalho artístico. Cópias perfeitas podem até ser reproduzidas, mas não terão o mesmo apelo.
Por isso tais trabalhos, surgidos de um momento de profusão na alma do artista, precisam ser preservados. Rita Queiroz, nossa estrela maior das artes plásticas em Rondônia tem pelo menos quatro trabalhos que expressam isso. De acordo com os conceitos teóricos das artes plásticas, tais telas poderiam ser classificados/rotuladas  como representantes do expressionismo, pois retratam a solidão, a miséria e a loucura vivida em algum momento pelos personagens que invadiram  a mente da artista em algum tempo. São pinturas que poucas pessoas exporiam na sala de sua casa, mas seriam encantadoras em uma galeria em qualquer lugar do mundo. Uma dessas telas perdeu-se recentemente. Era de propriedade de um empresário portovelhense que pelas contingências da vida, tipo idade avançada, saúde precária acabou por ter que aposentar-se. E muitos objetos acabaram sendo doados pra conhecidos e amigos, entre eles uma dessas quatro telas. Quando soubemos fomos atrás, na tentativa de um resgate, mas não havia mais tempo. Cupins, um inimigo mortal dos quadros de artistas em toda a existência da arte, alimentaram-se da madeira e da tela. Uma pena.


Mãe da Mata destruída após exposição em Goiânia em 2018
Ano passado, a mesma Rita Queiroz chorou sobre um trabalho que acabou destruído em uma viagem de Goiânia a Anápolis. A tela Mãe da Mata fora levada para a capital goiana para participar de uma exposição coletiva. A falta de recursos para transportar as telas  com segurança, bem como até a garantia de um seguro tem sido uma constante reclamação por parte dos artistas, que expõem seus trabalhos a perda, na expectativa de uma oportunidade de que ele possa ser visto por um maior número de pessoas em cidades e estados diferentes. 
Há anos atrás a própria Rita recuperou uma tela que retratava a Mãe d’Água, um dos personagens do folclore da Amazônia. A jovem que emprestara o rosto para a tela foi presenteada com a mesma, todavia pouco tempo depois veio a óbito, ainda muito jovem. Um dia numa visita à família Rita resgatou a tela que estava do lado de fora da casa exposta ao sol e à chuva, porque a família simplesmente não via nela nenhum valor. A artista contou que nem se sentiu ofendida, pois entendeu  que nem todos têm a sensibilidade para apreciar o esforço de um artista ao produzir um trabalho, que pode ser fácil ou como um  difícil parto.


Nessa onda da não valorização das artes plásticas Rita cita Afonso Ligório, que na sua opinião foi um artista formidável, precursor das artes plásticas em Rondônia, mas do qual há pouca coisa para ser visto ou estudado. Lembrou também do José Fona, outro nome  importante e com pouco acervo.

Visite o site da artista www.ritaqueiroz.com.br




quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Humaitá e Apuí instalam Rotary Club



Festiva de posse Rotary Club Humaitá-AM
O Distrito 4720 do Rotary Club inaugurou dois novos clubes neste mês de fevereiro. Os municípios amazonenses de Humaitá e Apuí são os novos membros. A posse  aconteceu no dia 16 em Humaitá e no dia 19, em Apuí. O 4720 reúne rotaryanos do Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia e Roraima é o distrito responsável pela maior extensão territorial do país, com 41% do território nacional   e até o dia 30 de junho está sob a tutela do governador Mâncio Martyres. Francisco Almeida, o Chico, um rotaryano que mora em Cacoal, assume a governança do distrito a partir de 1º de julho.
O Rotary é uma rede global de líderes comunitários, amigos e  vizinhos que se unem para causar mudanças positivas e duradouras em suas cidades e pelo mundo. A instituição existe há mais de 100 anos e por meio de seus associados contribui com a humanidade através de projetos  sustentáveis em diversas áreas como alfabetização, paz, saúde e recursos hídricos.
O clube de Humaitá iniciou suas atividades com 20 associados, mas o presidente Leôncio Flávio Nery Júnior destaca que quer atrair novos membros e alcançar outros municípios como Lábrea e Manicoré. No Apuí, a primeira formação conta  com 30 associados e na liderança do grupo está o presidente Paulo Lopes.

Presenças

Para a festiva de instalação e posse estiveram no interior do Amazonas os seguintes rotaryanos: Mâncio Martyres, governador 2018-19 e Waleska Martyres, ex-presidente do Rotary de Mosqueiro-PA. Francisco Almeida, governador 2019-20 e Nilva Klein Almeida de Cacoal e   Marinho Piacentur  dos Santos, que assumirá a Secretaria da Governança, a partir de julho. Marinho é membro do Rotary de Rolim de Moura.  João Petropolitano e Lucy Queiroz, do clube em Rio Branco-AC. Ele ex-governador 2008-09 e ela 2017-18. Júnior Lima, chairman 2019-20 do Distrito 4720. Almerinda Ribeiro, presidente do Rotary Porto Velho Rio Madeira, que apadrinhou os dois novos clubes e Isabel Cristina Silva, também do Rio Madeira, que será a vice-presidente do clube a partir de 1º de julho. Sabrina Mosconi membro do clube  Marcos Juárez, em Córdoba-Argentina e Ataliba Couto, do clube Monte Mário de Barbacena-MG. Marino João Galina, governador assistente 2019-20 e Berenice Pereira Varão, presidente 2019-20, ambos do Rotary de São Miguel do Guaporé. Patrício Carlos de Menezes, governador assistente 2019-20; Maria Gorete   Silva Menezes, serviços comunidade 2019-20 e Gleisy Antunes, secretária executiva 2019-20, os três de Guajará Mirim. Elaine Ruiz Ferreira, governadora assistente 2018-19 e Isaias  Ferreira Júnior, governador assistente 2019-20 do clube de Penapólis-Rio Branco – AC. Leôncio Flávio Nery Jr, Ericsson Costa Aires, Adriano Totanelli, Maria Inês Castro Corrêa e Manoel Claudio Jr, todos membros do clube de Humaitá, além de Paulo Sancler Lopes e Weslei de Souza, associados do clube em Apuí.
Na solenidade de posse os líderes rotaryanos lembraram e homenagearam Iara Ortiz, uma ex-rotaryana,  falecida em dezembro passado em Porto Velho, que esteve empenhada na formação dos dois novos clubes.

       
Novos associados do Rotary Humaitá




quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

REVISTA CRÍTICA DA INFORMAÇÃO



Os cinco primeiros números da Revista Crítica da Informação editada em 1983
Tenho minhas compulsões, confesso e uma delas é guardar publicações que me despertam interesse. Nessa  brincadeira tenho revistas dos anos 80 e alguns recortes de jornais. Com a umidade tão presente na nossa região, muitas publicações se deterioraram e outras  se perderam, mas ainda tenho algumas relíquias.
Em 1983, quando estava na Universidade um grupo de jornalistas de São Paulo lançou uma publicação sob o título de Crítica da Informação. No expediente estava o nome de profissionais fantásticos e modelos para universitários que sonhavam com uma brilhante carreira na área do jornalismo. Lá estavam Luiz Costa Filho, Carlos Eduardo Lins da Silva, Alberto Dines, José Marques de Melo, José  Roberto Penteado, Lúcia Costa, Lúcia Araújo, entre outros.
A proposta da Crítica da Informação era buscar compreender os meios de comunicação de massa, sua estrutura de funcionamento, a função política que estes desempenhavam na sociedade brasileira de então. Ao mesmo tempo prestar um serviço  intelectual ao público e ao profissional de comunicação, a fim de que todos pudessem entender “o fascinante universo de poder, conhecimento e dinheiro”,  citava o primeiro editorial, cujo o autor enfatizava que a informação sempre foi foco de poder. E que a mesma tornava-se cada vez mais vital para o desenvolvimento das relações sociais, descrevendo que consumi-la acriticamente seria condenar-se a si, e à sociedade, a sujeição definitiva e o objetivo da revista seria justamente contribuir para que isso não viesse a acontecer. Creio que o autor do editorial tenha sido o Luiz Costa.
Não sei por quanto tempo aquela Crítica da Informação resistiu. Eu consegui acompanhar as primeiras cinco edições. Penso que na expectativa de baratear o custo, a revista não tinha páginas coloridas, apenas as capas. No miolo o papel usado era comum, o que fez com que nestes 36 anos as páginas ficassem amareladas, mas ainda assim estão intactas. As cinco edições têm 66 páginas cada uma, vários artigos e pouca publicidade.
Acabei de fazer uma releitura do artigo de José Marques de Melo cujo título é Leitura de jornal: privilégio da elite brasileira.  J.M.Melo em 1983 já era doutor em Comunicação,   professor da Usp, autor de alguns livros, inclusive adotados pelas faculdades de Comunicação de praticamente todo o país. Nele o autor tenta responder algumas perguntas do tipo por que o brasileiro não tinha o hábito de ler jornal? Definindo que a leitura diária de jornal representava então um indicador civilizatório bastante expressivo. Segundo José Marques de Melo, que faleceu em junho do ano passado, qualquer país que enveredasse pelo desenvolvimento econômico, repartindo melhor o produto social entre os seus habitantes, registraria sempre a progressão das tiragens dos jornais.
A queda no quantitativo de leitores com relação ao crescimento populacional era marcante no primeiro número de Crítica da Informação. De 1950 a 1980 registrou-se um declínio constante, com pouca variação de crescimento na tiragem dos jornais, mais notadamente na década de 1970. Além disso, ele deixava evidente que o crescimento do número de alfabetizados não alterava o comportamento do público leitor, talvez porque o jornal se tornava um produto economicamente inacessível à grande maioria da população.
O texto destaca ainda  que havia uma certa acomodação por parte dos proprietários dos grandes jornais que estavam satisfeitos com suas receitas publicitárias, não indo  atrás de novos leitores. Sem contar que o maior volume de papel utilizado na confecção dos impressos dependia da  importação.
Atualmente, de acordo com o IVC  - Instituto Verificador de Circulação, a circulação impressa dos principais jornais diários do Brasil segue em declínio. Em Porto Velho, em 2017, o Alto Madeira, um matutino centenário deixou de circular. Antes deles perdemos muitos outros, como O Estadão do Norte, O Guaporé, O Imparcial, A Tribuna e tantos outros.

Exemplares históricos do Alto Madeira - última edição outubro de 2017
Numa análise mais atualizada, provavelmente os parâmetros seriam outros, mas o que vale aqui neste momento é destacar a preocupação registrada há 36 anos atrás. O certo é que os jornais estão  sendo extintos e não há nada mais vibrante do que a oportunidade de manipular um jornal impresso, sentir o cheiro da tinta, dobrar as páginas para uma leitura mais confortável. Antigamente quando viajava para visitar a família no Rio de Janeiro sempre comprava o jornal, nem que fosse aos finais de semana, quando as edições eram  recheadas de novidades. Com o passar do tempo o hábito foi desaparecendo e hoje quase nem me lembro. Mas se aparece um jornal leio o máximo possível.
Durante o curto período em que estive na  África do Sul, no ano passado, observei que a leitura do jornal impresso ainda é um hábito por lá. Há várias publicações que circulam nos bairros da Cidade do Cabo, a maioria de distribuição gratuita, com  vasta publicidade do comércio local, em especial supermercados e farmácias. Mas também há os informativos diários que tem o seu público alvo bem definido. E em geral, os jornais ficam expostos para venda nos supermercados.


sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

O Brasil que a gente não quer


08 de fevereiro de 2019

Amanhecemos nesta sexta com mais uma tragédia estampada nas manchetes dos noticiários on line. Desta vez, pelo menos, dez adolescentes, talvez entre 14 e 17 anos, perderam a vida. Eles foram vítimas de um incêndio que aconteceu no Centro de Treinamento do Flamengo, mais conhecido como Ninho do Urubu, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Outros três foram retirados do local, pelo Corpo de Bombeiros, ainda com vida e estão hospitalizados. 
Quem são estes meninos que buscam uma carreira em uma das profissões mais ilusórias do nosso país? Quem nunca conheceu um garoto que fez de tudo para chegar pelo menos perto de um desses Centros de Treinamento dos grandes clubes? Qual o tratamento dispensado a estes sonhadores? Será que eles recebem o melhor do clube? Alimentos, acomodação, atenção psicológica e etc?
Nunca estive em um Centro de Treinamento de Base para formação de atletas, mas imagino que não seja o local mais nobre dos clubes, tipo a sala de visita. Mas já tive contato com mães de meninos que sonharam um dia ser um grande jogador de futebol e o que elas contam não é lá grande coisa. Algumas informações na mídia davam conta de que as imagens,  publicadas nas primeiras horas, no local funcionava um depósito. Será? Depósito serve pra tudo, o que presta e o que é inservível. Mas quem vai responder sobre isso será a Perícia do Corpo de Bombeiros. Voltemos às vítimas.
Pois é, como ia dizendo, a clientela desses Centros de Treinamento, em geral dos que optam por morar no local, são meninos pobres, ou  não tão pobres assim que deixam suas casas a centenas de milhares de quilômetro em busca de um sonho. Todos têm algo em comum: ser um grande jogador, quiçá o melhor; vestir a camisa dos grandes clubes do Brasil ou do exterior e fazer parte do escrete da Seleção Brasileira. Sonhos completamente compreensíveis e aceitáveis, mas muitas vezes eles precisam passar por situações de grande tristeza e até humilhação e a maioria acaba voltando pra casa, decepcionado com o futebol. Alguns descobrem novos objetivos, outros param no tempo e no espaço.
Mas para aqueles dez meninos não houve sequer tempo para finalizar o sonho. Foram surpreendidos pela morte cruel. Talvez tenham despertado atordoados com a fumaça e sido por ela sufocado, talvez não. Quem vai saber? Suas famílias agora choram não apenas   a perda de um ente querido, mas lamentam a possibilidade de um dia mudar de vida, de ter sonhos realizados. Ainda não sabemos de onde eles eram, mas certamente de muitos lugares do nosso Brasil. Pena que tudo tenha terminado assim.  


 
O que restou após o incendio no alojamento dos meninos no Ninho do Urubu, em Varzea Grande, no Rio. (Foto Internet)

Só, para registrar, vale a pena lembrar que a Zona Oeste foi sacudida na última segunda-feira por um forte temporal, tendo sido uma das regiões do Rio mais atingidas. E de acordo com informações divulgadas pela midia até a madrugada do incêndio o local ainda estava sem água e sem energia. 

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

INTERCÂMBIO CULTURAL TEM LIMITE DE IDADE?

 Ayub, do Iémen,  completou 18 anos longe de casa fazendo seu primeiro intercâmbio

Árabes, japoneses, iemenitas, brasileiros, angolanos e sul-africanos variedade de culturas. Ayub, o nono na foto, é nosso caçula. Com a pasta azul é  a teacher Portia Lesch. 
Até quando devemos estudar? Isso mesmo sentar-se em um banco escolar e aprender coisas novas. Fazer novos amigos. Será que tem uma idade limite para tal façanha?

Sempre tive vontade de aprender uma nova língua. Na juventude passei por cursos de inglês, mas nunca consegui avançar o suficiente. Há uns quatro anos voltei a carga com força, mas o resultado não foi o esperado. Este ano parti para um projeto mais agressivo e fui intercambiar. Escolhi a África do Sul porque já estivera lá e o custo benefício em muito me favoreceria. Agência contratada, escola escolhida e com todas as outras burocracias aprovadas parti.
Deixar casa, família e tudo mais para trás não é fácil, pelo menos não na primeira vez. A princípio até achava que as dificuldades seriam facilmente superadas, mas não foram. Aqui, na sala de aula falamos a mesma língua e fora, quando se está perdida em um mundo que põe você de ponta cabeça? Ai a saudade aperta, o coração grita, a tristeza avança e tudo vira um caos. Hoje somos favorecidos pela tecnologia que nos dá acesso a todo tipo de informação instantaneamente. Isso me faz pensar em como era para as pessoas em um passado não muito distante, quando a Internet e seus recursos não eram tão populares. Pois bem, o aprendizado não foi o esperado. Sofri com um bloqueio por cerca de 60 dias. Até que faltando um mês para voltar para casa a mente começou a funcionar. Ai, já era tarde e Inês, como diz o velho ditado, já estava morta, ou quase. Mas descobri que é possível, que sou capaz e vou continuar a tentar.
Aqui a turma de Reunion, um departamento francê localizado próximo de Madagascar, é a maioria, mas não pode faltar um brasileiro na classe, no caso, dois, nós estamos em todos os lugares.  Teacher Mayuri, a terceira sentada. 
Primeira turma com teacher Fatima

Uma aula no campo para descrever os monumetos de Cape Town com a teacher Hearther

Na primeira turma a gente quase sempre esquece o nome de alguém, ainda mais quando se estuda junto só uma semana

Na escola em que estudei conheci pessoas de vários países, o que foi encantador. Tinha também muitos brasileiros, aliás a África do Sul está atraindo nosso povo, não somente para estudar, mas para o turismo. Certo que a maioria dos estudantes são jovens. Moças e rapazes beneficiados pelos pais para um curso no exterior, um investimento totalmente louvável. Mas há também adultos. Homens e mulheres dispostos a um aperfeiçoamento para melhorar o desempenho profissional.
Para cada um um objetivo, um sonho e um ideal
Entre as dezenas de pessoas que conheci perguntei para algumas razões para estarem em outro país estudando, Ana Maria Rodrigues Mateus, é economista, tem 59 anos e trabalha no Ministério das Finanças em Angola. Por várias vezes visitou a África do Sul, mas somente agora resolveu fazer um curso de inglês. “Na verdade eu estou aqui fazendo um tratamento de saúde e  para melhorar meu contato com os médicos, aproveitei para estudar”, destacou a angolana, para quem “o saber não ocupa lugar”.

Ana Maria Rodrigues, economista de Angola
A brasileira Beatriz Silveira é uma bancária aposentada, tem 62 anos e há tempos investe no aprendizado do inglês. Seu objetivo é melhorar a fluência para ter mais tranquilidade nas viagens. Para Beatriz, a idade não é impedimento para o aprendizado de uma nova língua, mas ela salienta que quando se é mais jovem, a assimilação também é mais rápida. “Mas sempre é tempo de estudar e de   aprender”

Beatriz, brasileira e Cleoprata, angolana
Cleópatra dos Santos tem 38 anos, nasceu e vive em Angola, mas passou seis anos no Brasil, onde estudou Engenharia da Computação. Deixou Luanda para passar seis semanas na Cidade do Cabo. Em casa ficaram três meninos, um de nove ano,  outro de cinco e o caçula  de um aninho. Para ela foi complicado ter que deixar os filhos pequenos para passar mais de um mês fora de casa, mas admite que não poderia perder a chance, uma vez que a empresa de tecnologia na qual trabalha ofereceu a ela a oportunidade de melhor capacitação. “O aprendizado não tem idade é como no amor, o importante é ter força de vontade e superar os obstáculos”. Para Cleópatra a possibilidade de aprender uma língua estrangeira com nativos é algo que não se pode dispensar.  

Vilmar e Rafael Silva além do Intercâmbio foram conhecer o projeto Obs Pasta Kitchen, que atende moradores de rua em Cape Town
Vilmar e Rafael Silva. Pai e filho. Sucesso na Good Hope Studies nas quatro semanas que estiveram por lá. Não é muiro comum a presença de duas gerações simutanemamente na escola, mas acontece. O pai, executivo de uma empresa de agronegócio em Cuiabá e o filho, naturalmente universitário. O objetivo do primeiro: evoluir no trabalho e do segundo: se preparar para o mercado que cada dia exige mais qualificação. 


Mundo árabe na Good Hope Studies in Cape Town

Ziggi, minha homestay e a amiga Gill Smit

Momemnto histórico: primeira certificação internacional

Reta Final para conclusão do intercâmbio



quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

ROBERTO BREGA : UM ÍCONE DAS ILUSÕES



Esta é a principal foto do Facebook de Roberto Braga, parece que publicada em 2013

Esta semana li nas redes sociais  a notícia da morte de Roberto Brega, um sonhador.  Seu corpo foi encontrado em um quarto de hotel do Centro de Porto Velho e sua morte foi dada como natural. O maior desejo de Roberto Braga: gravar um CD. E o segundo maior, talvez fosse ser agraciado pelo programa do apresentador de TV Luciano Huck, no quadro Lata Velha, onde teria seu fusca azul restaurado. Possivelmente, pela primeira vez Roberto conseguiu ser notícia de verdade e atrair a atenção do público. Os posts sobre sua morte foram compartilhados por muita gente e os comentários foram centenas. Talvez nem soubesse, mas tinha um fã clube considerável.  
Um tempo atrás, acho que há quase três anos,  fiz uma entrevista com ele lá na avenida Amazonas, no Agenor de Carvalho, próximo ao local em que ele então morava. Por algumas vezes tentei produzir um texto, mas sempre esbarrava em algumas dificuldades, a primeira delas, foi que  realmente não consegui extrair dele clareza nas informações. Às vezes me parecia um homem enigmático, mas de outras  vezes, a impressão que eu tinha é que lhe faltava  lucidez para concluir frases e pensamentos. Mas agora, diante da notícia de sua morte, retomei às escassas anotações e tento extrair delas alguma coisa que faça sentido. Por algumas vezes, tentei retomar a entrevista, mas sempre que o via em algum cruzamento, ou estava apressada ou pensava que não era um bom momento.
Mas enfim, a vida passa para todos e passou para o Roberto Brega, que na verdade se chamava  José e ao ser questionado pelo sobrenome, ele alegou que todo mundo conhecia ele pelo nome artístico, e não havia necessidade de mais informações. Adotou o nome de Roberto, porque muitos fãs diziam que a sua voz era muito parecida com a do cantor popular Roberto Carlos e o brega, certamente era por causa da linha musical que adotara.  Ainda assim disse que tinha  filhos, cinco no total e sete netos e que conversava, por telefone,  com alguns deles de vez em quando.  Sem admitir a idade exata deixou que eu sugerisse uma, falei 60 anos e ele disse que era por ai.
Brega contou então que a partir de um momento de sua vida, não definido claramente, passou a perseguir o sonho de ser cantor. Lembrou que quando tinha uns 10 ou 11 anos aprendeu a tocar violão. Com essa ideia, há alguns anos, deixou o Recife excursionando até o Amazonas. Passou por cidades como Nova Olinda do Norte e Santo Antônio do Borba. Na bagagem tinha um único CD gravado, e por onde passava pleiteava algumas cópias para vender ao público. Contou que viajou de avião e de ônibus com ar condicionado e que fazia shows ao vivo, mas aos poucos foi perdendo o que ganhava e por fim ficou sem a caixa de som e o teclado. Foi quando ouviu falar que talvez tivesse sorte em Rondônia, aonde chegou com 20 reais no bolso.
Passou por Guajará Mirim, onde pensava comprar um novo teclado,  para depois se estabelecer em Porto Velho. Saudoso, lembrava-se de ter tocado em um bar na Avenida Sete de Setembro, e outro no bairro da Balsa. A música principal de seu repertório, segundo ele mesmo, era “Mulher Vaidosa”, que o público sempre pedia bis.   Passou dois anos morando no fusca 1973, azul, o mesmo que nos últimos anos tentava, a todo custo, que fosse reformado no quadro Lata Velha, do Luciano Huck.
Quanto ao fusca, Brega relatou que enquanto não conseguia a reforma global, alguns  amigos tinham mandado para uma oficina em Porto Velho e que ele esperava em breve ter o seu carro de volta. Mas na verdade ele não tinha muita certeza sobre isso, pois se mostrava confuso quanto ao destino do antigo veículo.
A vida de Roberto Brega em nada se parecia com a do ídolo de quem ele adotou o nome. O único CD que conseguiu gravar foi uma matriz e sonhava com  a sua reprodução e distribuição em muitos pontos de vendas. Passados os anos e sem condição nenhuma de se apresentar, Brega passou a depender da caridade popular. O cartaz, anunciando seu show estava surrado, rasgado e sujo. Suas vestes  gastas também despertavam compaixão, mas ele não abandonava o estilo Roberto Brega de se vestir. Os cabelos emaranhados e a longa barba estavam incorporados ao seu estilo.  Pessoalmente, não me lembro desde quando ele estava em Porto Velho e acho que nem ele se lembrava, pois sempre que falava sobre este tema ele abordava outro assunto. Talvez haja em nossos jornais matérias informativas desse tempo, mas agora não tenho como verificar.
Bom seria se houvesse apenas este Roberto Brega, mas nossas cidades estão cheias de homens e mulheres que se perdem diariamente em sonhos, que para a maioria são inatingíveis. Alguns ficam na ilusão, outros apelam para as drogas, outros enfermam com a depressão. Cada um busca a sua válvula de escape. Brega chamou a atenção de muitos, mas poucos olharam para ele de verdade, e eu me incluo nestes muitos.  É provável que logo tenhamos outros Bregas nos semáforos de nossa cidade, aliás, acho que já temos. A maioria ainda é jovem, mas o tempo passa rápido e o fim de muitos talvez seja o de uma morte solitária em um canto qualquer. Acho que vale pensar em algo que  possamos fazer.


Estilo Roberto Brega de ser, inconfundível.  



segunda-feira, 19 de novembro de 2018

AS MENINAS DA BRAZILIAN FOOD


              
Olha nós ai. Teve até uma relíquia, a sacola plástica personalizada. Encontrei nos guardados do meu irmão e colega de trabalho Ademilson.

Não dá para lembrar com total clareza tudo que aconteceu na década de 80, mas sem dúvida foi uma época muito importante para mim. E, esta semana (terceira semana de outubro de 2018) tive  a oportunidade de movimentar um pouco os baús do passado, quando encontrei algumas queridas ex-colegas de trabalho e que com o passar do tempo passaram para a categoria de amigas, algumas por afinidade, outras pelos ministérios da vida, que nos liga a pessoas incríveis em todos os lugares.
A Brazilian Food, sem dúvida nenhuma, foi a melhor empresa privada em que trabalhei. Cheguei, se não me engano, em 1983 ou 84, estava estudando Jornalismo  na Faculdade de Comunicação Social em Bonsucesso. A Valéria Igreja, que hoje é também Moreira, uma colega de turma,  tinha sido contratada por uma empresa temporária, se não me engano a Gelre, e prestava serviços na BF. Ela me falou da empresa e disse que estavam precisando de uma faturista, arrisquei e fui admitida para preencher  notas fiscais. Era tudo na munheca. Todos os dias eram inúmeras notas fiscais, mas acho que não demorou muito este processo, porque logo veio a tecnologia e fui aproveitada na Gerência de Produção (Gerop) para outras atividades. O trabalho era de peão mesmo basta pensar no nome: p r o d u ç ã o. Trabalhávamos muito e acho que não seria exagero dizer que sem o nosso trabalho a empresa parava. Mas amávamos o nosso departamento, dávamos o nosso sangue por ele. Pelo menos era assim que eu pensava naquele tempo. Não tínhamos horário para sair, especialmente nos últimos dias do mês e trabalhar aos sábados era muito comum.
Mas o tempo  passou, e eu tinha   um projeto em mente: ser repórter. No término  da Faculdade optei por deixar a empresa, da qual me desliguei em fevereiro de 1986.   Me mudei para o Norte do país, e realizei o meu sonho. Constitui família, virei funcionária pública e agora já aposentada eis que do nada surge a oportunidade deste encontro.  Mas deixa eu relatar que  em novembro de 1986, quando vim ao Rio depois de ter me mudado para Porto Velho, que um grupo de colegas da Gerop foi me recepcionar no aeroporto do Galeão, mas o avião da Varig apresentou um problema técnico e pernoitou em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. A saudade era grande de ambas as partes e a turma preparou cartazes para me recepcionar, nos quais escreveram frases tipo: “A Gerop está aqui”, “Neguinha te amamos” e outras coisas. Recebi os cartazes,  mas sem a euforia do aeroporto. Até hoje fico pensando no frenesi e na disposição daquele pessoal em deixar tudo para ir ao aeroporto me receber com Boas Vindas. Voltando ao assunto, trabalhávamos   na avenida Rio Branco 109, no coração do centro comercial e financeiro do Rio de Janeiro. E nosso encontro não poderia ser em outro lugar, que não o já antigo McDonald em frente ao nosso antigo endereço.  Há uns dois ou três anos tentamos realizar um encontro, mas não deu certo, acho que era época de férias e ai a programação falhou. Mas agora, foi assim, tudo muito rápido e rasteiro. Avisei que estava no Rio e logo veio uma proposta. O whatsApp foi nosso melhor parceiro, porque em poucas horas algumas pessoas foram acionadas e todas de acordo marcamos o encontro para a semana seguinte, com dia e horário preestabelecidos.


Tínhamos um time vencedor na Gerop.


O ENCONTRO
Pra começo de conversa, é bom salientar que ninguém chegou atrasado, ou melhor, atrasada, visto que neste primeiro momento apenas as meninas participaram. Eu não consegui definir com clareza na minha mente o que esperava encontrar, afinal de contas há 30 anos não via aquelas pessoas. E algumas delas, depois eu soube, não se viam há pelo menos 20 anos, ou desde o fechamento da empresa, se não me engano.  Para amenizar a ansiedade  fui de trem e fiquei surpresa com a qualidade dos serviços. Trens limpos e novos, sem pichação. E no horário.  O encontro era para as 13h30, mas às 12 horas desembarquei na Central do Brasil. Fiz um deslocamento tranquilo. Passeei no Campo de Santana, parei em algumas lojas na Buenos Aires e já no Mercado das Flores atravessei para a Rua do Rosário e já nos primeiros passos da Rio Branco avistei minhas queridas  irmãs, porque é assim, nós mulheres acabamos todas sendo irmãs, especialmente quando temos três décadas de relacionamento. É incrível, mas a sensação que tive foi de que estivemos juntas a vida toda. Todas tinham a mesma fisionomia do tempo da Gerop, mesmo com as marcas do tempo em cada rosto.  Ao meu ver, estão mais belas e com muito mais afinidades do que antes. Não tivemos lágrimas, mas muitos abraços apertados e alegria. Como bem definiu uma delas, foi mágico.
Estivemos juntas por pouco tempo, mas foi excelente. Falamos alto, fizemos barulho, tiramos fotos e quando achávamos que alguém na lanchonete estava se incomodando com o nosso barulho, havia sempre uma explicação: há muito tempo não nos vemos. 
O encontro provocou a criação em um grupo de WhatsApp, até então, algumas de nós  nos falávamos individualmente, mas agora temos um grupo que está ganhando adesões de outros ex-funcionários da BF e já se fala em um encontro maior em janeiro de 2019.
Ainda nem contei quem estava lá: Ana Avelino, Mara Nádia, Marlene Cavalcanti, Rosângela Lima, Rosália Gonçalves, Cristina e eu. Cristina entrou na empresa depois que eu deixei a BF, e quando soube do encontro, mesmo com limitações se dispôs a participar.  Outros também disseram que gostariam de ter participado, mas acho que para o primeiro momento tivemos tudo que precisávamos. Agora, a partir de 2019 fica por conta do pessoal se organizar e manter o grupo unido. As redes sociais são muito legais, mas nada como ter a oportunidade de ver e de tocar as pessoas a quem queremos bem.



Lembranças de 1986. Muito amor envolvido.
Muitos colegas e amigos que participaram desta
recepção que acabou não acontecendo não estão citados no texto, porque na verdade, nem sei exatamente quem esteve lá.
Mas receber os cartazes dias após a minha chegada foi de fato incrível.




Obrigada irmãs queridas pela maravilhosa oportunidade de estar com vocês. Realmente foi Mágico.
Há sempre algo emocionante acontecendo no Rio de Janeiro, em especial o carinho e amizade que a distância e o tempo não conseguiram apagar.